sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Há qualquer coisa no ar...

No ventre de uma mulher grávida, dois gêmeos dialogam:

– Você acredita em vida após o parto?

– Claro! Deve haver algo após o nascimento. Talvez estejamos aqui principalmente porque precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.
...
– Bobagem, não há vida após o nascimento! Afinal, como seria essa vida?

– Não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que há aqui. Talvez caminhemos com nossos próprios pés e comamos com a nossa boca.

– Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É totalmente ridículo! O cordão umbilical nos alimenta. Além disso, andar não faz sentido, pois o cordão umbilical é muito curto.

– Sinto que há algo mais. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.

– Mas ninguém nunca voltou de lá. O parto apenas encerra a vida. E, afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.

– Bem, não sei exatamente como será depois do nascimento, mas, com certeza, veremos a mamãe e ela cuidará de nós.

– Mamãe? Você acredita em mamãe? Se ela existe, onde está?

– Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela não existiríamos.

– Eu não acredito! Nunca vi nenhuma mamãe, por isso é claro que ela não existe.

– Bem, mas, às vezes, quando estamos em silêncio, posso ouvi-la cantando, ou senti-la afagando nosso mundo. Penso que após o parto a vida real nos espera; e, no momento, estamos nos preparando para ela.

(Autor desconhecido)

sábado, 8 de dezembro de 2012

Nosso lixo de cada dia...

Outro dia tava pensando numa conta... uma conta enorme:

Há cerca de 97 milhões de mulheres no Brasil, menstruando todo mês, durante o ano todo. Supondo que cada mulher use cerca de 4 absorventes por mês dá mais ou menos 4.656.000.000 de absorventes. Sim, mais de 4,5 bilhões de absorventes cheios de plástico, algodão e uma série de substâncias que levarão séculos pra serem decompostas, sendo jogados na natureza por ano. Só no Brasil.

"Mas o que posso fazer?" você diz.
Eu digo: vamos procurar alternativas, pô!
Numa busca rápida achei um coletor menstrual. É reutilizável, de silicone e funciona.

E os homens onde ficam? Somos cerca de 93 milhões, camarada. Pensa n'outra conta, agora com prestobarbas, frascos de desodorante spray, frascos de pós barba, frascos e mais frascos; e as sacolinhas que você trouxe do mercado e as embalagens mistas, com alumínio, papelão e plástico, etc...

Não, não estou falando pra voltarmos pras cavernas (ouvi a voz da minha mãe dizendo). Estou falando pra pensarmos, pra levarmos a sério a questão do lixo. E pra fazer USO de alternativas que já temos e buscar novas, menos impactantes e mais eficientes (tem algum universitário aí?).

Na boa, cada um fazendo seu xixi no banho não basta.

fontes:
http://www.ipece.ce.gov.br/noticias/populacao-brasileira-supera-os-190-milhoes-diz
http://meninamalouca.blogspot.com.br/2009/01/coletor-mentrual.html

sábado, 20 de outubro de 2012

Uma palhaçada

Tinha uma senhora que trabalhava na biblioteca que tava sempre de cara amarrada, nunca a vi sorrindo. Daí que uma vez ela chegou na entrada da faculdade e me viu de cara pintada, nariz vermelho e mudo. Sem dizer palavra me aproximei, entregando pra ela folhetos imaginários de festas - o ato era uma sátira - e brincando e desafiando com o olhar. Ela riu-se toda e em harmonia com o vermelho do meu nariz e com meu silêncio (aparente) brincou.
Desde então, sempre que me vê, sorri . Não aquele sorriso morno que damos pros conhecidos, mas aquele sorriso vivo, que até os olhos sorriem. Aquele que damos pra quem pôde olhar nossa alma.
E nada me tira da cabeça que no fundo ela queria ser uma palhaça também. Naquele momento eu sei, sei, que ela queria tirar o uniforme de adulto, guardar tudo, e ficar alguns minutos, silenciosos minutos, vermelhos narizes minutos, minutos caretas e brincadeiras.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Poema do Menino Jesus




Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

- Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um, dois, três, dez, cinquenta, duzentos...todos!
Foi assim que tudo começou naquela manhã nublada de terça.
Nós da organização estava receoso de não aparecer ninguém e ficamos contentes e entusiasmados com o número de pessoas que se somou no local combinado.
Esse entusiasmo é que foi combustível paro resto do dia, era ele quando puxamos as palavras de ordem que estão até agora n'algumas cabeças, era ele quando demos a volta olímpica e convocamos todos os alunos para se juntarem na luta, era ele nas falas articuladas dos CA's, era ele nas inúmeras assinaturas no papel pardo, era ele nas rampas, escadas e corredores..e na frente da sala do reitor. 
Terça-feira todos os presentes foram contaminados com o entusiasmo, com a coragem de se organizar e lutar por melhores - dignas, pelo menos - condições de estudo.
Está claro pra nós que só temos o pouco que temos porque muitos lutaram antes de nós, como está claro que a luta só começou. Como diria uma companheira de luta: Essa cidade vai tremer!

domingo, 1 de abril de 2012

De que serve a Bondade - Brecht

"De que serve a Bondade?"

1

De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente abatidos, ou aqueles para quem foram bons são abatidos?

De que serve a liberdade
Se os livres são forçados a viver entre os não livres?

De que serve a razão
Se somente a estupidez coloca na mesa o pão
Que cada um de nós precisa?

2

Em vez de somente ser bom, esforcem-se
Para criar condições que tornem possíveis a bondade,
E melhor ainda,
Que a faça supérflua!

Em vez de só ser livre, esforcem-se
Para criar condições que libertem a todos,
E que façam do amor a liberdade
Supérfluo!

Em vez de só ser sensível, esforcem-se
Para criar condições que tornem a estupidez
Do "individual" um mau negócio!

ps: Supérfluo - s.m. Aquilo que excede o necessário.

– Bertolt Brecht, Was nützt die Güte? *De que serve a qualidade? (1935) in: Gesammelte Werke *Obras Completas, vol. 4, p. 553 (Suhrkamp ed. 1967) (Tradução do alemão por Scott  Horton e do inglês por André Araújo Carvalho)

terça-feira, 27 de março de 2012

Para cada mulher - Mabel Burim

Para cada mulher que está cansada de atuar de maneira tímida mesmo sabendo de sua força; existe um homem que está cansado de parecer forte, quando se sente vulnerável.

Para cada mulher que está cansada de atuar como se fosse um ignorante; há um homem deprimido pela exigência constante de saber tudo.

Para cada mulher que está cansada de ser qualificada como ser altamente emotivo; há um homem, a quem se nega o direito de chorar e ser delicado.

Para cada mulher rotulada de pouco feminina quando compete; existe um homem para quem a competência é a única forma de demonstrar que é masculino.

Para cada mulher que está cansada de ser um objeto sexual; existe um homem preocupado com sua potência sexual.

Para cada mulher que se sente atada aos seus filhos; há um homem a quem se nega o prazer da paternidade.

Para cada mulher que não tem acesso a um trabalho satisfatório e a um salário justo; existe um homem que deve assumir toda a responsabilidade econômica de outro ser humano.

Para cada mulher que desconhece os mecanismos de um automóvel; há um homem que não aprendeu os prazeres da arte de cozinhar.

Para cada mulher que caminha em direção à sua libertação; há um homem que descobre que o caminho da liberdade, tem sido para ele um pouco mais fácil.

Mabel é doutora em psicologia clínica e psicanalista na UCES em Buenos Aires.